Capítulo 1

Internet: A tecnologia que define nossa geração

 

Gustavo Kreuzig Bastos

 

           

            Em 1969, seria impossível imaginar que um novo experimento utilizando máquinas robustas e desengonçadas, conhecidas pelo nome de computadores, passaria a ser um dia a tecnologia que representa toda uma geração. Três décadas após as primeiras pesquisas, a internet tornou-se um fenômeno de crescimento, atingindo quase 400 milhões de indivíduos em todo o mundo. Nos Estados Unidos por exemplo, apenas 7 anos foram necessários para que 30% dos lares estivessem conectados à internet. A televisão precisou de 17 anos para atingir o mesmo número de residências. 38 anos foram necessários para o telefone e 46 anos para a eletricidade.

 

            A velocidade com que a internet cresce é ainda mais impressionante. Em países como os Estados Unidos e Canadá, somente nos últimos 3 anos, o número de pessoas com acesso a internet passou de pouco mais de 19 milhões para atuais 160 milhões. Na América Latina, o crescimento da Internet nos últimos anos culminou em atuais 15 milhões de usuário, mais de 50% desses residentes no Brasil.  Mesmo o continente africano, com grandes dificuldades tecnológicas para acesso à internet já apresenta mais de 3 milhões de usuários.  Tão impressionante como esses números, somente o destaque da mídia para este fenômeno, o que motivou ainda mais a curiosidade do público e propiciou a aceitação e compreensão de assuntos relacionados a esta arrebatadora tecnologia. A palavra internet era quase que desconhecida pela mídia norte-americana no fim da década de 80, tendo aparecido apenas 346 vezes publicada ou comentada na TV em 1990. Já em 1995 a palavra internet apareceu 70.944 vezes. Até setembro de 2000 já eram mais de 700.000 referências.

 

A tecnologia que permite o desenvolvimento da internet também ultrapassou todas as expectativas de crescimento. Esta tecnologia, representada por centenas de quilômetros de cabos de fibra ótica, satélites, servidores, softwares e muitas outras máquinas, que permitem e agilizam o tráfego de informações pela internet dobra sua capacidade a cada 100 dias. A todos os dias, mais de 3,2 milhões de páginas e 715.000 novas imagens são colocadas na internet. Quantas dessas páginas não são dedicadas à área de saúde ?

 

Quem poderia imaginar que a internet pudesse crescer dessa forma ? Por que a internet cresceu tanto ? Talvez encontremos as respostas para essas perguntas em quatro características fundamentais; comunicação, comércio, entretenimento e educação. A internet tem a capacidade única de oferecer meios de comunicação, canais de comércio, opções de entretenimento e oportunidades educacionais que todos os meios impressos ou digitais juntos nunca poderiam oferecer. Na área de saúde em especial, a internet se desenvolve a passos largos. Procedimentos e técnicas antes distantes, passam a estar mais próximo dos profissionais, consultórios e centros médicos. A pesquisa científica vem se beneficiando muito da internet. A colaboração internacional antes difícil e muitas vezes inviável, tornou-se rotina para muitos pesquisadores.

 

Apesar da internet ter mais de 30 anos de vida, sua massificação aconteceu apenas na última década. Dados específicos que apontam o crescimento da internet com enfoque no setor saúde são ainda muito escassos, quando não imprecisos. Para uma real e impressionante idéia da importância que a internet assume no cenário mundial como um todo, alguns dados são apontados abaixo:

 

·        Em 2001, o e-commerce (comércio eletrônico) deve alcançar 1,2 trilhões de dólares

 

·        17 milhões de lares (EUA) estavam fazendo compras pela Internet ao final de 1999. Essas vendas corresponderam a 20,2 bilhões de dólares .

 

 

·        O número de páginas na Internet é de aproximadamente 1 bilhão.

 

 

 

 

 

·        Em 2000, 56 % das empresas (EUA) estavam vendendo seus produtos pela Internet, contra apenas 24 % em 1998.

 

 

·        A Cysco Systems é  atualmente a maior empresa na Internet. Suas vendas alcançam mais de 32 milhões de dólares em produtos todos os dias, apenas pela Internet.

 

 

·        Em 2000, 82% dos recém formados (EUA) procuraram informações sobre emprego na Internet.

 

·        1 em cada 6 indivíduos utiliza a Internet nos EUA e Europa.

 

·        Apenas 35% dos usuários de internet no mundo não fala inglês.

 

·        Até o final de 2003 haverá 24,3 milhões de usuários da Internet na América Latina.

 

 

 

Quem são ?

 

            Mais do que números, é interessante também conhecer quem são os indivíduos que utilizam a internet. O rápido desenvolvimento de qualquer tecnologia levanta naturalmente questões sobre seu potencial benéfico ou não, como também suas conseqüências. Isto é particularmente verdadeiro para a internet. Nos últimos anos a internet vem sendo alvo não apenas de analistas de mercado ou profissionais de tecnologia, mas também de grupos com preocupações voltadas para os aspectos sociais. Questões sobre o impacto da internet na sociedade, seus efeitos sobre o ambiente familiar ou as ameaças à privacidade são bastante abordadas atualmente.

 

            Até recentemente, o usuário de internet e mais especificamente, o usuário das tecnologias eletrônicas, eram vistos como pouco sociáveis e muito jovens, capazes de trocar a televisão, cinema ou mesmo os amigos para ficar conectado à internet. Esses estranhos seres prefeririam a realidade virtual à vida real e foram retratados de várias formas, durante algum tempo, pelos meios de comunicação. Como sempre a imaginação correu solta frente ao desconhecido.

 

            Estudos amplos, realizados com amostras significativas de indivíduos revelaram entretanto que esta visão era bastante diferente da realidade. Uma pesquisa conduzida em parceria pela Revista Wired e o Grupo Merril Lynch em 1997, com 1.444 indivíduos norte americanos já apontava que as pessoas que estavam conectadas à internet não eram alienadas, nem tão jovens como se imaginava; a idade média era de 40 anos. Ainda segundo a pesquisa, os novos cidadãos digitais eram mais informados, tinham maior grau de educação, eram mais ativos na sociedade do que os não conectados e com melhor condição econômica. O estudo apontou ainda  que a renda dos indivíduos conectados era de maneira geral mais elevada do que a dos não conectados ou menos conectados.

 

            Muito mais do que uma mudança na maneira como os internautas passaram a ser vistos e tratados pela imprensa, estudos como este revelaram que os cidadãos digitais são muito mais confiantes e otimistas com relação ao futuro do que os indivíduos pouco ou não conectados. O gráfico apresentado na figura 1.2 apresenta o quão otimistas 4 diferentes grupos são com relação ao futuro de seus filhos. Percebe-se  que nesta pesquisa os indivíduos são divididos em 4 diferentes grupos, de acordo com o grau de sintonia com as mudanças e novidades tecnológicas existentes e que quanto mais conectados, mais otimistas eles são.

Figura 1.2: Quando perguntados sobre a qualidade de vida que seus filhos teriam quando atingissem a sua idade, os entrevistados escolheram entre muito melhor, melhor, pior ou muito pior do que as suas.

 

            Estudos mais recentes e completos, como o UCLA Internet Report 2000 apontam para a mesma direção. Neste estudo longitudinal, conduzido junto a 2.096 residências norte americanas nos últimos quatro anos, são enfatizadas diferentes questões sociais relativas aos usuários e não usuários de internet com relação a sua confiança, comportamento e atitudes frente a esta nova tecnologia. Os efeitos da utilização da internet sobre este grupo também são estudados.

 

            Com relação ao usuário especificamente, o estudo aponta que de uma forma geral, os homens acessam mais a internet do que as mulheres. Entretanto, levando em consideração as faixas etárias dos entrevistados, as mulheres passam a acessar mais a internet do que os homens nas faixas etárias de 12 a 15 anos e de 45 a 55 anos. Curiosamente, a presença de crianças no lar está associada a um maior número de horas de acesso à internet, entretanto apenas por parte das mulheres. Mulheres que vivem em lares com filhos acessam mais a internet (70,2%) do que mulheres que moram em lares sem crianças (56,6%).  A presença de crianças no lar não parece afetar a quantidade de acesso por parte dos homens.

 

            O sexo também parece influenciar a maneira como a internet é utilizada. De acordo com a figura 1.3, homens e mulheres passam a mesma percentagem de tempo conectados às páginas de entretenimento, por outro lado, os homens passam maior parte do tempo, conectados às paginas de comércio enquanto as mulheres passam mais tempo visitando páginas relacionadas ao trabalho, tanto os próprios, como também os de seus filhos. Com relação às informações em geral, as mulheres permanecem mais tempo conectadas às páginas de informações médicas ou de turismo por exemplo, do que os homens.

 

Figura 1.3: Percentagem do tempo que homens e mulheres acima de 18 anos permanecem on-line em páginas relacionadas ao trabalho, informação, comércio e entretenimento.

 

            De forma semelhante à pesquisa conduzida pela Wired / Merril-Lynch, o UCLA Internet Report 2000 também observa maiores e menores graus de concordância entre usuários e não usuários de internet. Sete perguntas que exploram o ponto de vista pessoal dos entrevistados e suas atitudes com relação à internet são apresentadas na figura 1.4. Dentre os resultados mais importantes, destacam-se alguns, como a concordância entre os usuários e os não usuários, de que as crianças podem ter acesso pela internet a conteúdo impróprio. Ambos os grupos de usuários também concordam que utilizar a internet pode fazer com que as pessoas economizem tempo em outras atividades e que as pessoas que estão on-line são mais propicias a perder sua privacidade. Por outro lado, usuários de internet discordam dos não usuários, quando perguntados sobre a utilidade da internet e se a internet tem algo de útil a oferecer, como apresenta o gráfico a seguir.

 

 

 

 

 

 

Figura 1.4: A partir de 7 perguntas e utilizando uma escala de 1 (forte discordância) a 5 (forte concordância), os entrevistados categorizaram suas respostas.

 

            No Brasil, alguns estudos começam a apresentar dados sobre o número de usuários e também sobre seu perfil. O Ibope, em parceria com alguns sites e empresas, vem conduzindo algumas pesquisas bastante interessantes. Dados recentes dessas pesquisas apontam que 19% da população das 9 principais regiões do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Distrito Federal) acessam a internet, ainda que de vez em quando. Ao todo, o número de internautas brasileiros chega a 7,2 milhões, sendo a maior parte (72%) pertencentes às classes sociais A e B. Os internautas homens ainda são maioria no Brasil (53%), entretanto as internautas mulheres vem ganhando espaço gradativamente, tanto que algumas pesquisas divulgadas em noticiários já apontam um equilíbrio entre os dois grupos.

 

            Interessante ressaltar que apenas 4% dos usuários exercem atividade relacionada à saúde. A grande maioria dos internautas brasileiros exerce atividades relacionadas à informática (19%) e à administração privada (8%) como mostra a figura 1.5. Se levarmos em consideração o número de médicos, dentistas, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e outras profissões relacionadas à saúde, esses dados tornam-se realmente espantosos. Aparentemente, os profissionais de saúde ainda não utilizam a internet como ferramenta de trabalho. Ao contrário das outras atividades não relacionadas à saúde, entende-se que por enquanto – e este enquanto pode ser um período bem curto – os profissionais de saúde ainda não necessitam da internet para exercer suas profissões. É evidente que profissionais de informática e administradores que utilizam mais computadores,  conseqüentemente encontrem mais facilidade em ingressar no mundo da internet. Entretanto, é imperativo que o profissional de saúde acompanhe esta tendência, e que, mesmo não necessitando da internet para sua rotina profissional diária, encontre nela, potencial extra para se informar, comunicar e pesquisar.

 

Figura 1.5: Pesquisa Cadê / Ibope com base em 25.000 respostas. Apenas 4% dos internautas brasileiros exercem sua principal atividade na área da saúde.

 

 

 

A internet e a área de saúde

 

Atualmente, existem centenas de sites de saúde na internet. Muitos são voltados apenas para os profissionais, e apresentam vasto conteúdo científico, outros pretendem atingir o público em geral. Alguns oferecem excelentes serviços, outros apostam no comércio, quer seja para o profissional ou para o público. Independente da proposta dessas empresas da nova economia, a área de saúde vem despertando grande interesse, no que diz respeito à internet.

 

Os profissionais de saúde que já utilizam a internet, estão tendo a oportunidade de acompanhar uma grande revolução na maneira como o conhecimento e informação são transmitidos. Através da internet, qualquer profissional de saúde pode ter acesso às últimas pesquisas publicadas nas principais revistas especializadas do mundo. Serviços como o Medline, apresentado no capítulo 8, oferecem não só apenas os artigos mais recentes, como tudo que foi publicado desde 1966 com interesse na área de saúde. São mais de 3.800 revistas científicas de 70 países, cobrindo um total de aproximadamente 10 milhões de artigos. E estamos mencionando apenas um serviço disponível gratuitamente a qualquer um, na internet.

 

Em se tratando de números que possam dar a real noção do que se investe na internet com relação à saúde, a Júpiter Communications destacou em fevereiro de 2000, que apenas nos EUA, o mercado que envolve a área de saúde está crescendo como poucos. O estudo aponta que a indústria da saúde que movimentou em 1999 aproximadamente 200 milhões de dólares, deve movimentar em 2004 mais de 10 bilhões de dólares. Graças à internet este novo setor de saúde começa a prosperar. Depois da introdução de termos como o “e-commerce”, não será surpresa que nos próximos anos o “e-health” tenha destaque na área de saúde.        

 

Com relação à atenção que a saúde desperta nos internautas, a Cyber Dialogue aponta que aproximadamente 54% dos internautas norte americanos utiliza a internet para obter informações sobre saúde, representando mais de 40 milhões de pessoas. A mesma pesquisa revela que 14,6 milhões de internautas navegam em sites que oferecem produtos e destes, 4,6 milhões chegaram a comprar algum produto.

 

Através da internet, as pessoas têm acesso a uma grande quantidade de informações, antes restritas. Conseqüentemente, os pacientes que chegam aos hospitais e aos consultórios são cada vez mais informados. Infelizmente, o conteúdo informativo das páginas da internet não pode ser controlado, mas independente disso, os profissionais de saúde passam a necessitar da internet, não apenas para aprimoramento pessoal, como também para poder conversar e informar seus pacientes sobre o que é verdadeiro e o que não é, no vasto universo de informações que é a internet.

 

Nos próximos capítulos, serão abordados assuntos relativos à saúde e a internet. Existe um grande número de temas a serem abordados quando a internet é colocada em discussão, mas tentaremos manter-nos totalmente voltados aos aspectos relacionados à saúde.