Aparelhos Funcionais: Uma Revisão
Functional
Appliances: A Review
Gustavo
Kreuzig Bastos Especialista em Ortodontia - UFF
José Nelson Mucha Professor Titular de Ortodontia
da UFF
Publicado
na Revista Brasileira de Odontologia, v.59, n.3, Mai/Jun,
p. 184-88, 2002.
Resumo:
Os ortodontistas
contam com um grande número de dispositivos para a
correção das maloclusões dentárias e o aprimoramento
da estética facial. Os aparelhos funcionais ganham
a cada dia mais destaque no cenário mundial e principalmente
nacional. Apesar de sua ampla utilização, muitas vezes
a terapia funcional não é totalmente compreendida.
Sendo assim, é proposta deste trabalho revisar a literatura
com relação: 1) a história dos aparelhos funcionais,
2) o mecanismo de ação desses aparelhos, 3) os tipos
de aparelhos funcionais mais comumente utilizados
e suas indicações, e 4) o efeito dos aparelhos funcionais
sobre os ossos da face, principalmente a maxila e
mandíbula e sua influência sobre o crescimento desses
ossos.
Palavras
Chave: Ortodontia, Aparelhos funcionais
Abstract:
Orthodontists
count with a great number of appliances to correct
dental malocclusions and to improve facial aesthetics.
Functional appliances get more and more prominent
in the world, and mainly, in the national scenery.
Although widely used, functional therapy is still
not well understood. Therefore, the purpose of this
study is to revise the literature in relation to:
1) the history behind functional appliance therapy,
2) the mode of action of those appliances, 3) the
most common appliances and their indications, and
4) the effect of the functional appliances on the
facial bones, mainly on the maxilla and the mandible,
and its influence on the growth of those bones.
Key
words: Orhodontics, Functional appliances
Introdução
Nas últimas
décadas, a utilização de aparelhos funcionais como
uma alternativa ao tratamento ortodôntico fixo vem
crescendo de maneira significativa (3,7,8,13,19).
A diversificação das técnicas e tipos de aparelhos
removíveis cresce de maneira proporcional ao número
de artigos, livros e cursos oferecidos no Brasil e
no exterior. Apresentados como sendo capazes de reorganizar
e re-equilibrar os tecidos orais, proporcionando um
crescimento mais harmônico entre as bases ósseas,
muitas vezes também é creditado a esses dispositivos
a capacidade de estimular o crescimento mandibular
(3,14,19). Os ortodontistas com formação mais clássica,
que utilizam principalmente as técnicas fixas, podem
se sentir desorientados, tamanho é o número de aparelhos
e seus diferentes mecanismos de ação, encontrados
na literatura ortodôntica. Sendo assim, é objetivo
deste trabalho apresentar uma revisão histórica da
evolução dos aparelhos funcionais e seu mecanismo
de ação, os aparelhos funcionais mais relevantes e
as evidências clínicas e experimentais encontradas
na literatura ortodôntica.
História
Segundo
Graber (8), as primeiras teorias sobre a plasticidade
óssea podem ser encontradas nos trabalhos de Roux
e Wolff do final do século XIX, que acreditavam existir
uma relação entre a forma dos ossos e sua função,
de maneira que, mudanças provocadas pelas forças funcionais
eram capazes de alterar a arquitetura óssea.
De acordo
com Schmuth (27), foi Viggo Andresen, a partir de
1908, quem realmente popularizou o uso do aparelho
funcional, com seu Ativador. Segundo Schmuth (27),
Andresen não estava satisfeito com o tratamento ortodôntico
de sua filha, que continuava com tendência a distoclusão.
Assim, com evidente inspiração no bite jumping de
Kingsley, testou seu ativador na própria filha, que
estava de partida de férias, onde permaneceria por
três meses. Este Ativador, um aparelho Hawley modificado,
com uma camada extra de vulcanite, provocaria um deslizamento
anterior da mandíbula quando em oclusão, resolvendo
a Classe II. Após o retorno de sua filha, Andresen
ficou impressionado com os resultados obtidos, tendo
conseguido a correção da Classe II e uma melhora significativa
do perfil, apenas com o uso noturno do aparelho. A
partir de então, aprimorou seu dispositivo, e passou
a tratar jovens pacientes com maloclusões Classe II,
1a divisão. Andresen concluiu que seus casos tratados
com o Ativador tinham um ganho ao nível ósseo e neuromuscular
que dificilmente uma técnica fixa proporcionaria.
Andresen acreditava que a alteração do padrão funcional
poderia ser de grande benefício para a correção de
alterações sagitais, mais precisamente da Classe II,
1a divisão (27).
A partir
das idéias de Andresen, que Petrik e Herren, em 1957
e Haupl, em 1959, aprimoraram o Ativador, que Balters,
em 1964, propôs o Bionator, que Fränkel, em 1969,
apresentou uma variação mais complexa, atualmente
conhecida com FR2, que Bimler, em 1964, desenvolveu
seu dispositivo na Alemanha e que o escocês Clark,
em 1988, apresentou mais recentemente o Twin Block.
(27, 4, 7, 6, 10)
Ainda
com relação aos dados históricos, nota-se uma particularidade
evidente, relacionada aos aparelhos funcionais; todos
foram desenvolvidos basicamente na Europa. Encontra-se
a resposta a esta questão na própria história, já
que a evolução desta linha da ortodontia coincide
com o período das duas grandes guerras mundiais. Com
a escassez de materiais nobres, os ortodontistas foram
obrigados a buscar novos recursos para corrigir as
maloclusões. Juntando-se a este fato, a tendência
por tratamentos sociais, principalmente nos períodos
pós-guerra, as técnicas funcionais passaram a ser
destaque da especialidade na Europa no último século.
Mecanismo
de ação
Antes
de analisar o mecanismo de ação dos dispositivos funcionais,
é importante mencionar que existe unanimidade com
relação a maloclusão indicada para o tratamento. A
Classe II, 1a divisão é apontada como a maloclusão
que pode ser beneficiada do tratamento com esses dispositivos
(1, 3, 6, 7, 8, 9, 14, 15, 16, 28). Apesar de existirem
também dispositivos funcionais para a correção de
alterações transversas, tanto no arco superior (7),
como no inferior, ou mesmo, para o tratamento da Classe
II, 2a divisão (26) e Classe III, é fundamental estabelecer
que os dispositivos e aparelhos funcionais na sua
maioria, são utilizados para corrigir ou amenizar
discrepâncias sagitais ântero-posteriores, mais especificamente
a Classe II ,1a divisão.
Os fundamentos
teóricos por trás do tratamento funcional das discrepâncias
sagitais regem, segundo as teorias de Moss (7, 21,
22), que um novo padrão funcional ditado pelos aparelhos
pode ser atingido, levando ao desenvolvimento de um
"novo" padrão morfológico. Este novo padrão funcional
pode envolver diferentes tecidos oro-faciais, como
a língua, os lábios, os músculos faciais e da mastigação
e o periósteo. Dependendo do tipo de aparelho funcional,
maior ênfase é colocada em alguma dessas estruturas
(8, 13 ,23, 28).
O novo
padrão morfológico envolve também uma reorganização
das posições dos dentes sobre as arcadas, com melhora
da oclusão e também melhor relacionamento das arcadas
entre si. Segundo as teorias funcionais, dispositivos
móveis, quando utilizados durante determinado tempo,
provocam uma alteração na atividade dos músculos da
face, através de uma desorganização dos padrões neuromusculares
atuantes e de uma reorganização, a partir da posição
guiada pelo dispositivo (3, 6, 7, 8, 13, 15, 16, 19,
20, 29). Uma alteração dos padrões musculares não
apenas alteraria a posição da mandíbula, como faria
com que ocorresse uma mudança estrutural dela própria,
de seu côndilo e dos ossos adjacentes (1, 9, 19, 20).
Tipos
de Aparelhos funcionais
1.
Ativadores
Um dos
primeiros aparelhos funcionais utilizados em grande
escala foi o Ativador. Recebeu este nome pois teria
a capacidade de "ativar" a musculatura da face, dos
lábios, da língua e da mastigação. Andresen, e Häupl
(1957) foram responsáveis pela popularização deste
aparelho no início do século na Europa. Acreditavam
que o aparelho poderia resolver os problemas sagitais
através da ativação de determinados músculos, mais
especificamente, os músculos responsáveis pela protração
e elevação da mandíbula, com concomitante relaxamento
e estiramento dos músculos retratores. (27)
Mediante
o uso deste dispositivo, a mandíbula assume uma nova
posição "forçada" onde os molares passam a estar em
Classe I. O lábio inferior é forçado para frente dos
dentes superiores, ajudando inclusive na correção
da projeção desses. O aparelho também permite que
a língua assuma uma posição mais fisiológica e acredita-se,
inclusive, que a respiração melhore. Seguindo este
raciocínio, o ambiente oral encontraria um novo equilíbrio
e os dentes acabariam por encontrar suas posições
de maneira natural, corrigindo a Classe II. (3,8-10)
Originalmente,
o aparelho Ativador de Andersen não apresentava partes
que movimentariam os dentes. Sendo semelhante a um
aparelho de Hawley, estaria em contato com o palato
e os processos alveolares, tendo como grande trunfo
o preenchimento extra de vulcanite em forma de ferradura
de cavalo, que permitiria o reposicionamento mandibular.
Acreditava-se que as forças intermitentes, causadas
pelo aparelho "solto" na boca, seriam suficientes
para favorecer uma reorganização dos dentes nas suas
novas posições. (8,9,11)
Existe
divergência sobre a quantidade de horas que deve ser
utilizado (8). Enquanto alguns autores preconizam
o uso deste aparelho durante a noite, por acreditarem
na hipótese de que os incrementos de crescimento acontecem
mais durante este período, outros, como Ahlgren, citado
por Graber (8), acreditam que os músculos não desempenhariam
grandes funções durante a noite, sendo impossível
corrigir a maloclusão (8).
Existe
dúvida a respeito da capacidade do Ativador de promover
o crescimento mandibular. Segundo as pesquisas de
Harvold (9), a correção da Classe II é obtida através
de um aumento significativo do processo alveolar da
mandíbula, principalmente na região de molares e de
uma redução do crescimento maxilar no sentido sagital.
A redução do overjet ocorre devido à contenção do
crescimento maxilar juntamente com a inclinação para
lingual dos incisivos centrais, decorrentes do reposicionamento
dos lábios. O crescimento mandibular em comprimento
não é estimulado pelo Ativador, quando comparado com
o grupo controle do estudo. (9)
Ainda
segundo Harvold (9), este tipo de técnica somente
pode ser empregada onde um aumento da dimensão vertical
for permitido, já que a correção da Classe II ocorre
principalmente devido ao aumento do processo alveolar
na mandíbula. Pacientes portadores de face longa,
com predomínio de crescimento vertical, deveriam ser
tratados de outras maneiras. (9)
Com relação
à utilização de aparelhos fixos e móveis no mesmo
tratamento, Hickham (11) salienta, que a maioria dos
ortodontistas norte-americanos prefere tratar os casos
no início da dentição permanente, entretanto, muitos
casos requerem uma intervenção mais precoce, e que
para isso, os ortodontistas utilizariam mecânicas
do tipo "4 X 2". Uma alternativa para este tipo de
abordagem seria o aparelho funcional Ativador, que
promoveria o reposicionamento da mandíbula e de sua
musculatura, um melhor posicionamento dos lábios e
principalmente da língua. Hickham acredita que esses
benefícios do Ativador superam em muito os das técnicas
do tipo "4 X 2". (11)
Para Hickham
(11), a possibilidade de agregar forças extra-orais
ao Ativador é uma grande vantagem, que permite a união
entre os conhecimentos da ortodontia fixa e móvel,
principalmente nos casos de alterações dos terços
da face. Os dispositivos extra-orais são fixados diretamente
no aparelho funcional, na região anterior ou na posterior,
de acordo com o controle de crescimento desejado.
(11)
Outras
modificações aos Ativadores giram basicamente em torno
da distância em milímetros da ativação no sentido
sagital - o quanto de protrusão da mandíbula o aparelho
deve proporcionar - e da altura em milímetros do dispositivo.
Com relação a este último aspecto, são encontradas
muitas argumentações relacionadas aos efeitos positivos
ou mesmo negativos de uma maior ou menor altura vertical,
principalmente com relação à utilização do espaço
funcional livre. Para, Graber (8), em 1994, quanto
maior a camada de resina sobre os dentes, menor será
a capacidade do paciente se adaptar ao dispositivo.
(8)
2.
Bionator
Durante
os anos, modificações foram introduzidas ao Ativador
de forma a atingir diferentes objetivos de tratamento.
Parafusos expansores, molas interproximais, molas
em "C", mais ou menos camadas de acrílico, etc., são
apenas algumas das possíveis variáveis encontradas
na literatura. (3,8,13,27) O Bionator, desenvolvido
por Balters, em 1964, é atualmente o aparelho funcional
modificado mais utilizado, pois é menos volumoso na
forma e tamanho, sendo mais fácil de usar (7, 12).
Segundo Graber (8), o Bionator pode estabelecer uma
boa coordenação entre a função dos músculos internos
e externos, permitindo que esses se desenvolvam da
melhor maneira possível, evitando o estabelecimento
de "aberrações" na oclusão.
O Bionator
de Balter utiliza uma mola do tipo "Coffin" no palato
ao invés da base em acrílico. O fio vestibular não
visa movimentar dentes, mas sim monitorar a posição
dos lábios em relação aos dentes, até a região de
2ºs molares decíduos. Para permitir a erupção dos
dentes permanentes, o acrílico é desgastado de forma
a guiar a erupção. O aparelho é confeccionado de maneira
tal a estabelecer um contato de topo-a-topo de incisivos.
Segundo Graber, em 1994, este dispositivo também é
um excelente adjunto para tratamento das DTMs que
necessitam de reposicionamento anterior mandibular.
(8)
Para Sug
Joon (30), a origem das mudanças que contribuem com
a correção da Classe II, com aparelhos funcionais
ainda é controversa. Enquanto alguns autores apontam
que as mudanças acontecem ao nível de processo alveolar,
outros acreditam que os aparelhos funcionais são capazes
de promover alterações esqueléticas durante a fase
de crescimento. Em seu trabalho, selecionou jovens
tratados com o Bionator e separou-os em dois grupos,
de acordo com o sucesso ou insucesso do tratamento.
Concluiu que, características cefalométricas que apontam
para um padrão de crescimento horizontal, relação
esquelética ântero-posterior normais, incisivos mandibulares
retruídos e lábios inferiores retruídos são referências
para a indicação do Bionator.(30)
Modificações
para o Bionator também são encontradas na literatura,
como por exemplo o Biomodulador de Fleischer. Neste,
pequenas alterações são feitas de forma a eliminar
a influência do lábio inferior sobre os dentes - um
fio com o papel de "lip-bumper" é adicionado, e, uma
base metálica é acrescentada para permanecer entre
os dentes e impedir a erupção daqueles que tocam na
base enquanto permite a erupção dos demais. (8)
3.
Fränkel
Uma modificação
bastante interessante ao Ativador é o aparelho de
Fränkel (1969), desenvolvido por Rolf Fränkel (6,7).
Este funciona de forma semelhante aos demais tipos
de aparelhos funcionais com relação ao conceito de
reposicionamento mandibular, entretanto, não utiliza
o recurso de "construction bite" encontrado na maioria
dos demais. Para conseguir a correção sagital, utiliza
fios apoiados estrategicamente sobre a parte lingual
do processo alveolar anterior inferior, que guiam
a mandíbula anteriormente. (7)
Também
é diferente no sentido de ser realmente fixo à maxila,
ao contrário do Ativador, que deveria ser mantido
"flutuando" entre as arcadas. Contando apenas com
um apoio para evitar a extrusão de molares superiores,
o aparelho também não apresenta qualquer mola de ativação
diretamente sobre dentes, creditando qualquer movimento
das unidades dentárias às reorganizações ao nível
de processo alveolar (6-8,16).
O aparelho
de Fränkel também requer um cuidado e precisão muito
maior ao ser confeccionado, principalmente em se tratando
dos escudos vestibulares, que são a verdadeira inovação
proposta pelo autor. Esses escudos têm como objetivo
uma real interferência no padrão de pressão exercido
pelos tecidos sobre os dentes. Os escudos eliminam
completamente as forças das bochechas sobre os dentes
e se estendem até os limites superiores e inferiores
vestibulares, onde uma pressão é exercida com o objetivo
de provocar uma verdadeira remodelação óssea. Escudos
anteriores também são incorporados ao aparelho para
impedir que forças consideradas anormais continuem
exercendo pressão sobre os dentes anteriores. Fränkel
encontra justificativa na sua utilização nas teorias
de Enlow e Moffet, que apontam que forças exercidas
no fundo do vestíbulo podem realmente provocar a remodelação
ou mesmo crescimento ósseo. (6,7)
O aparelho
Fränkel difere dos demais aparelhos funcionais,visto
que funciona mais como um dispositivo de exercício
para o paciente, do que um aparelho reposicionador
propriamente. Segundo Graber (6-8,), são comuns na
literatura artigos que comparam de maneira inadequada
diferentes aparelhos funcionais em relação ao aparelho
de Fränkel, por não levarem este aspecto em consideração.
Para McNamara , existe também falhas nos critérios
de seleção de amostras, na seleção dos grupos controle,
nas variações técnicas e principalmente, no tipo de
medição ao serem feitas tais comparações. (16, 17)
4.
Twin Block
O Twin
Block, é um aparelho funcional recente, apresentado
por Clark, em 1988, que lança mão de planos inclinados
na região de 2ºs pré-molares para corrigir os problemas
sagitais de Classe II, 1a divisão. De forma semelhante
aos demais aparelhos funcionais, o Twin Block também
causa uma projeção da mandíbula para corrigir a maloclusão.
Seu mecanismo de ação reside em planos inclinados
de 45o, construídos em resina acrílica tanto para
a parte mandíbular como para a parte maxilar do aparelho,
fazendo com que a mandíbula deslize anteriormente
em oclusão. (1, 4, 20, 25).
Adaptações
também podem ser feitas ao dispositivo, de acordo
com as características de cada caso. Por exemplo,
em casos onde o plano mandibular é fechado e há tendência
para sobremordida exagerada, os molares inferiores
são deixados livres, sem qualquer cobertura oclusal,
de forma que irrompam e auxiliem na redução da sobremordida
(4). Para casos onde há uma tendência de crescimento
vertical, incluem-se os molares inferiores e superiores,
impedindo qualquer erupção desses elementos (4). Ao
Twin Block também pode ser introduzido parafusos expansores,
e quando fixo à maxila, auxiliar nas correções transversas.
Para os
casos onde há necessidade de maior controle de crescimento,
Clark sugere a utilização do Twin Block em conjunto
com a tração extra-oral. Para tanto, utiliza na porção
maxilar de seu dispositivo, trilhos para a adaptação
do aparelho extra-oral que de acordo com a direção
de crescimento, pode ter sua tração voltada mais para
a região cervical ou occiptal do paciente (4).
Clark
utiliza juntamente com o Twin Block, aparelhos bastante
conhecidos dos ortodontistas que trabalham com as
técnicas fixas, como a expansão palatina e os dispositivos
extra-orais. Talvez seja devido a essa característica
que seu dispositivo, e mais precisamente, suas idéias
sejam tão bem aceitas pelos ortodontistas norte-americanos
(4).
Com relação
às técnicas funcionais, existe uma tendência de prescrever
os dispositivos funcionais em uma idade mais precoce.
Baseado neste fato, Baccetti (1) comparou os resultados
do tratamento com o Twin Block em crianças antes do
surto de crescimento e durante o surto, concluindo
que o momento ideal para o início do tratamento com
os dispositivos funcionais e mais especificamente
o Twin Block, é durante o surto de crescimento, pois
dessa forma, a contribuição esquelética para a correção
da maloclusão é ainda maior, sendo possível obter
os melhores resultados com relação ao incremento de
comprimento mandibular e com a reorientação mais posterior
do crescimento condilar. (1)
Mills,
reconhece em seu trabalho que, apesar de instalar
o Twin Block em idade precoce, o surto de crescimento
é o momento mais adequado para o uso de aparelhos
funcionais. Entretanto, segundo a autora, quanto antes
o aparelho for instalado, maior será a correção esquelética.
(20)
Outro
aspecto relevante com relação aos aparelhos funcionais
e mais especificamente ao Twin Block, é seu efeito
de estimular o crescimento mandibular. Existe uma
tendência dos estudos mais sérios em desmistificar
essa idéia. (5, 9, 15, 16, 18). A resposta para um
aumento no comprimento da mandíbula e da altura vertical
do ramo está na observação ao longo prazo. A maioria
dos estudos aponta para um efeito de "rebound" da
mandíbula e dos dentes, onde os incrementos dos valores
que tendem para a correção, diminuem bastante nas
fases de pós-tratamento quando comparados aos grupos
controle sem tratamento (5, 9, 15, 16, 18).
Evidências
científicas
Segundo
Carels e van der Linden (3), a maioria dos relatos
clínicos na literatura concorda que o processo alveolar
é o maior responsável pelas adaptações que ocorrem
durante a correção da Classe II 1a divisão, com os
aparelhos funcionais (3). Essas adaptações incluem
um impedimento da migração mesial dos dentes maxilares,
um impedimento do crescimento maxilar no sentido vertical,
alteração da posição dos incisivos superiores e inferiores,
intrusão dos incisivos superiores e inferiores e uma
migração mesial dos dentes da mandíbula (3, 9, 15).
Apesar
do significativo avanço das estruturas mandibulares
durante o tratamento, ainda existe muita discordância
com relação ao real efeito deste tipo de tratamento
sobre a mandíbula, mais precisamente sobre seu crescimento
(3, 5, 9, 12). Muitos autores afirmam que a capacidade
de promover o crescimento mandibular é o fator diferencial
entre as técnicas funcionais e as demais técnicas
ortodônticas, enquanto que outros afirmam que não
há relação entre os aparelhos e o crescimento mandibular
(5, 9, 15, 16, 18). Existem também na literatura referências
sobre a ação desses dispositivos no côndilo e na cavidade
glenóide (2, 18, 24), sugerindo que uma remodelação
dessas estruturas possa ser provocada mediante a utilização
de dispositivos funcionais (2, 18, 24).
Apesar
de muitos relatos confirmarem o efeito de controle
de crescimento maxilar, principalmente para o aparelho
tipo Ativador, os aparelhos combinados com a tração
extra-oral são talvez os maiores responsáveis pelos
relatos de sucesso para a inibição do crescimento
maxilar tanto no sentido ântero-posterior como vertical
(3, 10). Com relação aos efeitos transversos, parece
haver unanimidade de que o aparelho de Fränkel é o
mais indicado (3).
Autores
como McNamara e colaboradores (17) observaram em experimentos
com macacos, que a projeção mandibular era capaz de
alterar o padrão postural do músculo pterigóideo,
e que este "novo" padrão de orientação do músculo
era capaz de provocar um incremento de crescimento
dos côndilos dos primatas (17).
Apesar
de amplamente aceito, os conceitos de que as estruturas
orofaciais e mais especificamente da musculatura terem
grande influência no desenvolvimento da face e da
dentição, é extremamente difícil de avaliar e principalmente
quantificar os efeitos de quaisquer dispositivos sobre
essas estruturas, quantificando-os e relacionando-os
com as alterações morfológicas esperadas (2, 3). Muitas
pesquisas, como as de McNamara, por exemplo, são bastante
esclarecedores sobre a relação dos aparelhos funcionais
e o músculo pterigóideo, entretanto negligenciam mais
de 20 outros músculos que também estão inseridos na
mandíbula e que poderiam influenciar os resultados
obtidos nas pesquisas (2,3). Segundo Bishara (2),
deve ser observado que os estudos em animais dificilmente
conseguem reproduzir as mesmas características existentes
em pacientes que seriam indicados para a terapia com
aparelhos funcionais.
As evidências
experimentais confirmam os conceitos teóricos, de
que os aparelhos funcionais podem ditar um novo padrão
funcional, mas, até o momento, muito pouco dessas
teorias pode ser verificado cientificamente (2,3,5,12).
Os requerimentos mínimos necessários para que um aparelho
funcional altere determinado padrão funcional ainda
são obscuros, como também as maneiras de quantificar
qualquer alteração provocada por eles (3).
As evidências
igualmente apontam, para um conjunto de modificações
apresentadas na figura 1, onde uma parcela da correção
se deve ao:
1- Impedimento
do crescimento alveolar superior, impedindo a erupção
do primeiro molar superior, que conseqüentemente não
migra para "Lee-way space" superior, o que permite
um ganho de aproximadamente 1mm;
2- Favorecimento da erupção do primeiro molar inferior,
crescimento alveolar inferior, e conseqüentemente
migração total no "Lee-way space" inferior, conseguindo-se
um ganho aproximado de 2mm:
3- Possibilidade de projeção anterior dos incisivos
inferiores, quer seja de corpo ou por inclinação,
permitindo um avanço de todo o arco dentário mandibular
em aproximadamente mais 1mm (tem-se até aqui uma soma
de 4mm):
4- Possibilidade de restringir o crescimento maxilar,
basal ou alveolar, que poderia ser estimado em 1mm
e;
5- Possibilidade de permitir uma resultante e/ou crescimento
mandibular anterior, por hipótese, em mais 1mm.
Somando-se
todas as alterações, tem-se uma diferença de 7mm,
suficiente para a correção da Classe II. Deve ser
salientado ainda, que em um primeiro momento os aparelhos
funcionais irão realizar um reposicionamento mandibular
(8), e em um segundo momento poderá haver ou não uma
remodelação óssea, dependendo das características
do paciente (8). Figura 1 - Controle da movimentação
dentária dos molares e incisivos superiores em tracejado,
favorecimento da movimentação dentária dos molares
e incisivos inferiores para anterior, em tracejado
e, possível controle do crescimento da maxila e mandíbula
e conseqüente modificação das posições dentárias em
pontilhado.
Conclusões
Existem
atualmente dezenas de tipos e modificações para os
aparelhos funcionais. Oriundos basicamente do Ativador
de Andresen, são amplamente utilizados, apesar de
seu mecanismo de ação não ser totalmente compreendido
e principalmente, comprovado cientificamente (3, 12).
Os aparelhos funcionais apresentados nesta revisão,
podem ser entendidos, na opinião dos autores, como
auxiliares na primeira fase do tratamento ortodôntico,
desde que os pacientes apresentem as seguintes características:
a- Maloclusões de Classe II , 1ª Divisão (3, 4, 9,
10); b- Fase final da dentição mista (1, 3, 4, 6,
7, 19, 20); c- Bom potencial de crescimento e na fase
de surto de crescimento (1, 3, 4, 7, 19, 20); d- Direção
resultante do crescimento mandibular predominantemente
horizontal (1, 14, 28); e- Possibilidade de projeção
dos incisivos inferiores e lábio inferior para anterior
(3, 16, 18, 28); f- Recusa em utilizar aparelhos extra-orais
(8, 12, 14, 28, 29).
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